Teologia pra quê?

Por Josias Silva1 Teologia é a ciência de Deus e das relações entre Deus e o universo. Augustus...

Teologia pra quê?

Por Josias Silva1

Teologia é a ciência de Deus e das relações entre Deus e o universo.

Augustus Hopklin Strong

Introdução

É bem comum nos circuitos evangélicos, sobretudo no meio pentecostal, ainda uma certa resistência quando o assunto é teologia. Para muitos, teologia é algo chato que deve ficar longe da igreja que não serve para muita coisa, pois a Bíblia por si só já seria o suficiente para ler e entender suas verdades.

Esse comportamento no meio pentecostal, tem raízes históricas. Em 19042, quando começou o movimento conhecido como movimento da “segunda benção”, na Rua Azuza, nos Estados Unidos – Califórnia, já era um mover de protesto pelas igrejas históricas estarem vivendo um intelectualismo frio, sem muita devoção, que mais ficava nas preocupações teológicas do que o acender da chama do Espírito Santo no coração. Algo parecido com o que ocorreu no tempo de John Wesley na Inglaterra. Nos documentos que registram a vinda de Daniel Berg e Gunnar Vingren para o Brasil, em 1910, se nota que a grande preocupação que eles tinham era com o mover do Espírito Santo, deixando as outras questões, como teologia e estudos mais sérios das Escrituras, em segundo plano. Assim, o nascer do movimento pentecostal, já por si só, foi como uma “contrarreforma”, por assim dizer, ao intelectualismo cristão.

E enxergando por esse viés, tinha sua razão de sê-lo. Não obstante, a longo prazo, isso teve seus efeitos colaterais. O resultado (apesar de, graças a Deus, muitas igrejas pentecostais acordarem, tardiamente, para realidade de ter que estudar teologia como a própria Assembleia de Deus – mãe do pentecostalismo brasileiro) foi um crescimento de um sincretismo religioso que deturpou a doutrina cristã, onde a essência dos dogmas clássicos da cristandade estão cada dia mais perdendo-se em detrimento de ensinos antropocêntricos; isto é, que enaltecem mais ao homem do que a Deus. Isso é a clara característica da ausência de uma boa teologia, pois o que se é, teologicamente, desembocará no culto.

A seguir vamos a algumas definições do que vem a ser “teologia”.

O que é teologia?

Definir o que é teologia de maneira semântica não é algo difícil, mas como veremos adiante, teologia vai muito além da definição lexical. Dito de maneira simples e etimológica, o termo teologia é a junção de dois termos gregos “theos” que significa “Deus” e “logos”, que tem por significado “razão, discurso, palavra, estudo, tratado”. A teologia não é somente uma “ciência” acerca de Deus, ela pode, e deve se relacionar com o homem e o universo. Visto que o universo é apenas uma manifestação de Deus e se distingue dele, há ciências da natureza e da mente. A teologia é a “ciência das ciências”, não porque inclui todas as ciências, mas porque emprega os seus resultados mostrando sua base de maneira implícita.

Mas a palavra teologia, em si, pode ter múltiplos significados. Vamos alguns sugeridos pelo teólogo Pannerberg em sua obra magna Teologia Sistemática:

  1. O termo teologia foi usado com o sentido de história de mitos e lendas dos deuses por Platão (427-347 a.C.).
  2. Na Grécia, os poetas levantam o nome de teólogos por suas composições em honra aos deuses. A famosa Teogonia de Heródoto,3 era, na realidade, discussões filosóficas a respeito do divino (teogonia) e do mundo (cosmogonia) que, dito do sentido latino do termo, pode ser considerado “teologia”.
  3. Sócrates chamou uma das três disciplinas da filosofia de “teologia”, o que postumamente foi chamado de “metafísica”4, pois o escopo da disciplina visava o estudo do divino como princípio de todo ser.
  4. Os estoicos, posteriormente, distinguiram uma “teologia” dos filósofos que se adequava à “natureza da divindade da teologia mítica dos poetas, e da teologia política dos cultos estatais: aqui teologia já é mais somente objeto de análise filosófica, e, sim, é ela mesma”.5

Karl Barth, um dos maiores teólogos do século 20, discorrendo sobre a teologia assevera:

A teologia representa um dos empreendimentos humanos costumeiramente qualificados de “científicos” que têm por finalidade perceber um objeto ou uma área como fenômeno, compreendê-lo em seu sentido e tematizá-lo em todo alcance de sua existência – é isso, dentro do caminho indicado pelo próprio objeto em questão. O termo “teologia” parece indicar que ela, por ser uma ciência particular (e muito particular!) visaria perceber, compreender e tematizar a “Deus”.6

Dito isso, pôde-se dizer, de acordo com Pannenberg que “O teólogo é o proclamador da verdade divina e inspirado por Deus, e teologia é a proclamação. Isso permaneceu vivo ainda no uso linguístico posterior dos cristãos. Nesse sentido, os autores bíblicos puderam ser chamados em um conjunto de teólogos.”7

Assim, teologia seria o estudo de Deus, ou, como prefiro definir, o estudo acerca de Deus ou melhor ainda, o estudo da revelação de Deus ao homem, pois me parece impossível alguém estudar Deus como se o mesmo fosse um objeto de estudo científico. A teologia não pode ser entendida como um conhecimento teórico, abstrato e científico de Deus, como propõe os cientistas, que dizem que o estudo sério tem que ser feito sem paixão e com imparcialidade, mas sim, pelo menos no que se concerne à teologia cristã (que é a que nos interessa aqui), ela precisa se planificar em um conhecimento prático e existencial de Deus através das Escrituras sob a iluminação do Espírito Santo.

A função da teologia

Cabe nessa pergunta a definição do teólogo Paul Tilich, que diz:

A teologia, como função de igreja cristã, deve servir às necessidades desta igreja. Um sistema teológico deve satisfazer duas necessidades básicas: a afirmação da verdade da mensagem cristã e a interpretação dessa verdade para cada geração. A teologia oscila entre dois polos: a verdade eterna de seu fundamento e a situação temporal em que esta verdade deve ser recebida.8

O mártir cristão Dietrich Bonhoeffer (1906-1945) faz uma relação entre Bíblia e teologia que vale a pena lermos na íntegra o que escreveu sobre:

A teologia é curvar-se sob o conhecimento coerente e ordenado da palavra de Deus em seu contexto e em sua figura singular sob orientação dos credos da igreja. Ela está a serviço da pregação íntegra da palavra na comunidade e da edificação da comunidade de acordo com a palavra de Deus. A essência da comunidade não consiste em fazer teologia e sim em crer na palavra de Deus e obedecê-la. Mas, como aprouve a Deus revelar-se na palavra humana falada, e como essa palavra fica exposta à falsificação, à contaminação pelos pensamentos e pelas opiniões humanas, a comunidade deve ter clareza a respeito da pregação correta e falsa; ela precisa de um subsídio.9

A função da teologia, então, seria, o de prestar um serviço à comunidade cristã de maneira a elucidar as verdades bíblicas e respeitando os dogmas centrais da fé cristã. Outrossim, seu papel não está acima da Bíblia, ao contrário, a teologia é serva dela (a Bíblia). Qualquer teologia que sobrepuja as Escrituras, deixa de cumprir seu papel.

Quem precisa de teologia?

A pergunta não é uma pergunta retórica. Como já dito acima, muitos diriam que a teologia deve ficar restrita a profissionais da área, que, por estudarem teologia, são frios e insensíveis ao Espírito Santo. O que é uma grande falácia. Basta ver os grandes homens de Deus na história, como Agostinho, Lutero, Calvino, Wesley, Edwards, só para citar alguns, que tiveram uma vida intelectual ativa e eram homens fervorosos e com compromisso com Deus. E muito do que afirmamos biblicamente na contemporaneidade, passa por eles, qualquer afirmação das Escrituras que fazemos hoje, dificilmente não vai esbarrar em questões já discutidas por esses e muitos outros homens de Deus que se esmeraram em conhecer as verdades bíblicas. Assim, gostando ou não de teologia, qualquer assunto da Bíblia na atualidade, são meras repetições desses arautos do cristianismo.

Se dizer puramente “bíblico”, sem levar em conta o que já foi discutido em dois mil anos de cristianismo, seria pura arrogância, dado a nossa pequenez em relação a eles. O que quero dizer é que toda e qualquer reflexão bíblica já é um “fazer teologia” – ninguém escapa. Em uma palavra, cabe apenas refletir sobre a boa e má teologia a ser “estudada” e quais os métodos hermenêuticos (interpretativos) a serem adotados. No que pese admitir se precisamos ou não de teologia, no final, todos fazemos teologia; isto é; todos de alguma maneira – somos “teólogos” quando pensamos em temas relativos a Deus. A isso diz Stanley Grenz e Roger Olson:

[…] a teologia é inevitável ao cristão que pensa, e a diferença entre teólogos profissionais ou não é apenas de posição, não de qualidade. […] profissionais ou não, os teólogos (todos os cristãos que pensam, independentemente da denominação) precisam uns dos outros.10

Resta-nos apenas humildade para nos reconhecermos como eternos aprendizes da revelação de Deus e dos grandes homens que levaram o estudo sobre das Escrituras mais a sério do que um momento de preleção. Homens que fizeram da Bíblia, a sua própria vida. Sendo assim, todos precisamos de teologia. Mas como já dito, a teologia está a serviço da Bíblia, e não ao contrário; e a mesma só tem relevância quando atende às necessidades da igreja como corpo de Cristo, e não meramente à satisfação intelectual. Conhecimento sem a unção de Deus é triste, unção de Deus sem conhecimento pode ser catastrófica. “Antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A Ele seja a glória, agora e no dia eterno! Amém” (2 Pe 3:18).

1 Josias Silva é Mestre em Ciência da Religião e Doutorando em História e Cultura das Religiões. Atua como professor da disciplina de Panorama do Novo Testamento: Epístolas Paulinas na Faculdade Bíblica das Assembleias de Deus (FABAD).

2 Embora, como é sabido, existem fatos que ocorreram nos Estados Unidos, no início do Século XX, antes da Rua Azuza. Um deles foi a experiência que tiveram os alunos de Charles Fox Parham, na Escola Bíblica Betel. Há abundância de bibliografias que tratam sobre o tema.

3 Ver: Teogonia de Heródoto é um importante livro em que o escritor escreve sobre a mitologia grega, deuses e heróis que tentavam explicar a formação do homem e do mundo. Sua importância, para nós cristãos que estudamos, incide em ver como os gregos enxergavam a formação do mundo, pois, muito do que os gregos relatam em suas “teogonias” e “cosmogonias” perpassam por paralelos da cultura judaico-cristã, ou seja, os hebreus já tinham respostas mais convincentes no que tange a origem do universo e o homem e os gregos, postumamente, podem ter se influenciado ao tentar dar respostas teológicas para a formulação de tudo em sua volta e a si mesmos.

4 A palavra “metafísica” significa algo que está para além do que é físico; isto é, tudo que passa do mundo que se coloca diante de nossos sentidos, o que vemos, tateamos, ouvimos etc. Metafísico é o “mundo” além do mundo.

5 Wolfhart Pannenberg: Teologia Sistemática, Vol. 1, p.25

6 7. Karl Barth. Introdução à Teologia Evangélica, p. 9.

7 Idem, p. 25

8 TILICH, Paul. Teologia Sistemática 21. São Paulo: Aste, 2011.

9 Bonhoeffer apud Franklin Ferreira. Teologia Cristã: uma introdução à sistematização da doutrina cristã, p. 26.

10 Stanley Grenz e Roger Olson. Quem precisa de teologia? Um convite ao estudo sobre Deus e sua relação com o ser humano, p. 29.

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