Os cinco pontos do Arminianismo – uma introdução

A teologia arminiana tem sido mal interpretada e acusada erroneamente de ser pelagiana ou semipelagiana. No século XVII, os primeiros arminianos foram acusados...

Os cinco pontos do Arminianismo – uma introdução

A teologia arminiana tem sido mal interpretada e acusada erroneamente de ser pelagiana ou semipelagiana. No século XVII, os primeiros arminianos foram acusados de muitos outros erros além desses, como socinianismo e coornhertianismo. Essas más interpretações têm sido baseadas em falta de verificação das fontes primárias, senso comum e, às vezes, até desonestidade intelectual. 

Falta de verificação das fontes primárias. Uma leitura da biografia de Armínio (veja a obra de Carl Bangs) demonstra que, já em seus dias, ele era acusado de coisas que não dizia. No Sínodo de Dort, Festus Hommius usou textos socinianos e de Adolphus Venator como se fossem dos remonstrantes, acusando-os de negar a doutrina do pecado original (sobre isso, veja o capítulo de Aza Goudriaan na obra Revisiting the Synod of Dordt). Ainda hoje, muitos criticam Armínio sem, ao menos, terem lido suas obras. 

Senso comum. O senso comum é uma prática não científica. É uma repetição de informações sem a devida verificabilidade. Muitas vezes, uma informação errônea ou mentirosa se passa por verdade. No Brasil colonial (1500-1815), os senhores de escravos inventaram uma mentira de que não se podia misturar manga com leite com o intuito de impedir que os escravos tomassem leite. Essa mentira é popular até hoje no Brasil, ao ponto de pessoas não ousarem fazer essa mistura com medo de morrerem. O mesmo ocorre com relação à noção de arminianismo. Algumas inverdades são propagadas em obras de história da teologia e são tratadas como se fossem confiáveis. Ler as fontes primárias é o caminho certo. 

Desonestidade intelectual. Mesmo com a leitura de boas fontes secundárias sobre o pensamento de Armínio (e.g. Keith D. Stanglin, Thomas H. McCall, Richard P. Muller, F. Leroy Forlines, J. Matthew Pinson, Roger Olson etc.) e com a disponibilidade das obras de Armínio em língua inglesa, alguns autores e expositores insistem naquelas acusações errôneas de que o arminianismo é o mesmo que pelagianismo e semipelagianismo. 

De forma mais simples (embora não simplista), o presente artigo propõe iniciar uma série de artigos curtos que trarão, em sequência, alguns pontos do pensamento de Armínio e do remonstrantismo inicial. Nesse primeiro artigo, destaco o que tem sido conhecido como os cinco pontos do arminianismo.  

Algumas pessoas pensam que os cinco pontos do calvinismo (conhecido pelo acróstico TULIP) nasceram primeiro. Contudo, eles são mais exatamente oriundos dos contrapontos que o Sínodo de Dordt fez para com os 5 artigos da remonstrância. Vale lembrar que, o acróstico TULIP é mais recente e remonta ao início do século XX e não a Dordt. 

Primeiro, portanto, nasceram os cinco pontos do arminianismo. Em 1610, o pastor Johannes Uitenbogaert (1557-1644), amigo do então falecido Jacó Armínio (1559-1609), liderou a publicação de cinco artigos de protesto contra o calvinismo rígido. Os cinco artigos destacavam as principais preocupações com relação à rigidez do sistema calvinista da época, os quais estão resumidos a seguir: 

I – A predestinação é condicional. Os decretos divinos para salvação e reprovação não são incondicionais, isto é, Deus não escolhe quem quer salvar e quem não quer salvar, até porque, sua vontade é que todos sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade. Ao invés disso, Deus elege para a salvação aqueles que, pela graça, creem em Cristo; e reprova aqueles que rejeitam a graça de Cristo e permanecem na incredulidade. 

II – A expiação é ilimitada. A obra de Cristo no calvário não foi realizada somente por uma elite escolhida na eternidade passada. Em vez disso, seu sacrifício foi realizado por toda a raça humana, isto é, por todas e cada uma das pessoas. Isso, no entanto, não significa que todos sejam salvos, pois a eleição é condicional. Além disso, os benefícios da expiação são aplicados somente aos que creem, havendo diferença entre a provisão do perdão dos pecados e a aplicação do perdão. 

III – A depravação é total. É impossível para a raça humana caída dar qualquer passo autônomo em direção à salvação, pois o arbítrio para as coisas espirituais não foi simplesmente ferido, adormecido ou adoecido, mas, perdido. Essa declaração afasta os remonstrantes de qualquer espécime de pelagianismo, semipelagianismo, socinianismo e coornhertianismo.  

IV – A graça é o centro da salvação e pode ser resistida. Uma vez que o ser humano caído não tem livre-arbítrio, é preciso que a graça venha primeiro (preveniente). O centro da salvação não é o homem (antropocentrismo), mas, a graça (charicentrismo). Essa graça, no entanto, não tem primazia somente antes da regeneração, mas, em toda a trajetória cristã e na consumação da salvação, sendo o início, a continuação e o fim de todo o bem. Essa graça também pode ser resistida e sobre isso, as Escrituras dão amplo testemunho. 

V – A perseverança dos santos é condicional. A segurança da salvação está em Cristo. A união mística com Cristo e a presença do Espírito Santo testificam a salvação e dão garantia dela. No artigo de 1610, os remonstrantes não se definem com respeito à realidade da apostasia, isto é, se um cristão verdadeiramente nascido de novo pode cair da graça e perder sua salvação. Contudo, em 1618, eles entregaram outro documento ao Sínodo de Dordt afirmando essa possibilidade e realidade.  

Esses cinco pontos da remonstrância também têm sido associados ao arminianismo, sendo também chamados, às vezes, de cinco pontos do arminianismo. Neste caso, “arminianismo” recebe esse título como parte de uma escola ou tradição que tem um breve sistema soteriológico.  

Assim como os cinco pontos do calvinismo ganharam um acróstico no século XX sob o nome TULIP, alguns arminianos têm sugerido um acróstico para os 5 pontos do arminianismo-remonstrante. Brian Abasciano sugeriu FACTS: Freed by grace; Atonement for all; Conditional election; Total depravity; Security in Christ. Rusty Brian propôs outro acróstico, a saber, DAISY:  Depravity; All are elect; Illimitable atonement; Superabundant grace; Yeld of salvation.  

É importante mencionar que, a teologia arminiana não se resume nesses cinco pontos da remonstrância. Esses pontos podem resumir um pouco do debate soteriológico, porém, Armínio se envolveu em mais debates soteriológicos do que simplesmente esses cinco pontos. Uma fonte que mostra uma abrangência maior é a sua Declaração de Sentimentos. Mesmo assim, os cinco pontos nos ajudam a entender um pouco do modus operandi da salvação na perspectiva armínio-remonstrante. 


Autor: Prof. Dr. Vinicius Couto
Professor da Faculdade Bíblica das Assembleias de Deus – FABAD

Possui graduação em Teologia, História e em Administração de Empresas e Especialização em História da Teologia e em Ciências da Religião.  Possui Mestrado em Teologia, Mestrado em Educação e Doutorado em Ciências da Religião. Atualmente desenvolve pesquisa de pós-doutorado no programa de Educação, Artes e História da Universidade Presbiteriana. 

Atua como professor na FABAD nas disciplinas de História do Cristianismo Medieval, Filosofia da Religião e Panorama do Antigo Testamento: Livros Poéticos e Proféticos.  

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