Paulo de Tarso é, sem dúvida, uma das figuras mais significativas na história do cristianismo primitivo e porque não dizer em dois mil anos de história da fé cristã. Ao contrário de Jesus que nada deixou escrito, e que não elaborou doutrinas, Paulo foi quem, de alguma maneira, esquematizou as bases das doutrinas cristãs sendo considerado por muitos como um dos fundadores do cristianismo.
Tal como disse James Dunn (2003, p. 26) “Paulo foi ‘primeiro’ no sentido de ser preeminente entre os teólogos cristãos. Ele pertenceu àquela geração que foi mais criativa e mais definitiva para a formação e a teologia do cristianismo do que qualquer outra desde então”. Fala-se, inclusive, (exageradamente, é bem verdade) de “paulinismo” (e não cristianismo) referindo-se aos ensinamentos de Paulo que seriam muito peculiar do próprio apóstolo no que tange aos dogmas do cristianismo.
Udo Schnelle (2010, p. 17) diz que “Paulo foi o pensador teológico mais criativo da primeira geração do cristianismo. Seu ensinamento a respeito ‘da verdade do evangelho’, e no fundo, a respeito da identidade do cristianismo, é uma parte fundamental da escritura auto definidora do cristianismo”.
24 % do cânon bíblico neotestamentário é atribuído a Paulo, suas cartas são lidas como o sustentáculo da fé cristã. Dificilmente a fé dos primeiros cristãos iria tão longe não fosse a pessoa do apóstolo Paulo. Sem Paulo (humanamente falando) e sua capacidade argumentativa e doutrinal em seus escritos, o cristianismo não teria tomado as dimensões mundiais que tomou.
A isso diz Schnelle (2010, p.165) “Embora Paulo não seja o segundo fundador do cristianismo, sem seu engajamento e suas capacidades, dificilmente um movimento judaico de renovação teria se transforma do com uma rapidez estonteante em uma atraente religião mundial”. Compreender Paulo (tarefa não tão simples) é compreender o embrião do cristianismo. Rudolph Bultmann diz que “a ideia que temos de Paulo determina a nossa compressão do cristianismo” (Bultmann apud Becker, 2007, p. 18).
Sendo assim, ler o que Paulo de Tarso escreveu, é ler o que foi a formação originária da Igreja: seus problemas, pensamentos e anseios. Os escritos de Paulo, embora não sejam um compendio sistemático teológico (conforme pensou Melanchthon), são ‘cartas missionais’ (Vidal 1996) com muita teologia — de altíssimo nível — endereçadas de forma pedagógica, apologética e evangelística às comunidades, das quais, ou foi ele quem deu início, ou tinha alguma relação com pessoas que o conheciam.
Ele é indubitavelmente uma dádiva de Deus à Igreja. Num mundo quase pós-cristão, resgatar os escritos de Paulo é mais do que necessário, é salutar à vida espiritual da comunidade de Cristo. Lê-los, deveria ser parte do cotidiano de todo cristão sério e apaixonado por Jesus.
Que sejamos leitores ávidos por ler, entender e pôr em prática o que Paulo escreveu — esse que é o grande exponencial da fé cristã.
REFERÊNCIAS | CONCORDÂNCIA
Becker, Jurgen. Paulo, vida, obra e teologia [trad. J. Rabuske], São Paulo: Ed. Academia Cristã Ltda, 2007.
Dunn, James D. G. A teologia do apostolo Paulo [trad. Edwino Royer], São Paulo: Paulus, 2003.
Schnelle, Udo. Paulo: vida e pensamento [trad. Monika Ottermann], Santo André: Academia Cristã; São Paulo: Paulus, 2010.
Vidal, Senén. Las cartas originales de Pablo. Madrid: Editora Trotta, 1996.
Autor: Prof. Josias Silva
Professor da Faculdade Bíblica das Assembleias de Deus – FABAD
É mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP e doutorando em História e Cultura das Religiões (com ênfase em Estudos Paulinos) na Universidade de Lisboa. É docente na área de Novo Testamento, História do Pentecostalismo, Introdução à Bíblia e Hermenêutica Bíblica no Instituto Bíblico e Teológico Filadélfia (IBTF) e em Epístolas Paulinas na Faculdade FABAD.