Há muito se tem convencionado que ciência e religião2 nunca andarão juntas, pois dizem ser diametralmente antagônicas e contrapostas. Entre tantos questionamentos possíveis, perguntamos se o discurso do distanciamento é, de fato, uma incompatibilidade inerente à ciência e à religião ou ao cientista e ao religioso, i.e., ao indivíduo próprio e suas predileções?
Não há dúvidas de que as disparidades e diferenças são enfatizadas, notadas e potencializadas no ambiente das atividades vivenciais do cientista e da pessoa religiosa, i.e., nos laboratórios e nos locais de culto. Pois, quando longe destes ambientes próprios, ao menos de maneira explícita, as discrepâncias parecem não ser tão notáveis ou quase inexistentes.
Nesse sentido, a arqueologia como ciência recente, parece corroborar com a proposição de que é possível percorrer um caminho, em que, respeitadas as individualidades e peculiaridades, podemos encontrar convergências entre o ser cientifico e o ser religioso.
Na atualidade, toda e qualquer instituição educacional, sejam as universidades e/ou as faculdades de ensino secular e/ou religioso, bem como os seminários teológicos, precisam ter um departamento e professores/as de arqueologia, ou no mínimo, possuir em sua grade curricular a disciplina de arqueologia.
De acordo com o site de ciência “Britannica”3, estudos recentes comprovam que poucas universidades importantes em todo o mundo estão sem departamento e professores/as de arqueologia.
Por conseguinte, isso não significa o fim das tensões entre ciência e religião e, em nosso caso, entre a arqueologia com ciência e a religião, mas possibilita-nos a promoção de diálogo e aproximações.
Nessa mesma linha de considerações, importantes pesquisadores/as e estudiosos/as de ambas as áreas, tem nos legado um caminho viável para trilhar. Dentre eles, Matthieu Richelle4, que em seu livro traduzido para o português, “A Bíblia e a Arqueologia,” apresenta-nos de forma didática e pedagógica qual (is) o (s) limite (s) da arqueologia, que assim, como a Bíblia, é uma ciência que requer interpretação, e onde há interpretação, tem-se o que dizer e o que pensar! O mesmo serve para a Bíblia, cujo teor específico é a fé, portanto, um livro religioso a rigor.
A partir das perspectivas e abordagens de Richelle (especialmente) e de outros/as pensadores, biblistas, arqueólogos, exegetas e pesquisadores, dos quais citamos: Kaefer, Unger, Finkelstein, Lipschits, Na’aman, Davis, Gheno, Machado, Klein e outros, apresentaremos a partir de conceitos e argumentos, sem contudo, postular a impossível tarefa de contemplar e dar por plenamente interpelado o assunto, a seguinte proposta para reflexão: “A Arqueologia e a Bíblia. Entre encontros e desencontros.”
Do ponto de vista dos “encontros”, ressalta-se que tanto a Bíblia como a Arqueologia lidam com interpretações, com a história, com a geografia, com o passado e com as reconstruções sociais, econômicas, políticas e religiosas de povos antigos.
Já do ponto de vista dos “desencontros”, boa parte deles surgem ou tomam forma a partir da resposta que damos à seguinte questão: “Quem tem a palavra final e/ou definitiva sobre a reconstrução histórica das sociedades e culturas dos povos antigos? É a Bíblia ou a Arqueologia que apresenta maior confiabilidade?”
Reconhecemos que as questões por si só, já convida a pessoa do cientista e do religioso a tomar uma posição ou lado. É essa ânsia e afobação imediata na tomada de uma posição das próprias predileções, sem a devida calma, atenção e reflexão, que nos leva às factoides, i.e., a produzir informações falsas e carentes de comprovações, mas que devido ao clamor da opinião pública são propagadas e difundidas como verdadeiras.
Nesse sentido, outra vez, Richelle (e ele não está só) traz alento ao propor uma abordagem equilibrada entre os dados arqueológicos e a narrativa bíblica. Para tal, ele
sugere quatro casos possíveis de se estabelecer uma relação entre o que diz a Bíblia e o que revela a arqueologia, a saber: a) Confirmações; b) Comparações; c) Ilustrações e d) Complementos.
Obviamente que os casos apresentados por Richelle não tem a pretensão de dar o assunto por encerrado. No entanto, como já dito em linhas anteriores, eles podem estabelecer uma linha segura de diálogo entre a Arqueologia e a Bíblia.
REFERÊNCIAS | CONCORDÂNCIA
2 Às vezes, a expressão “fé” é utilizada como sinônimo.
3 Disponível em: https://www.britannica.com/science/archaeology/additional-info#history
4 Doutor em Ciências Históricas e Filológicas pela EPHE-Soborne
Autor: Prof. Dr. Omar João da Silva
Professor da Faculdade Bíblica das Assembleias de Deus – FABAD
Possui graduação em Teologia pelo Seminário Teológico Batista Nacional Enéas Tognini (2013), convalidado pela Universidade Metodista de São Paulo (2015), graduação em Gestão de Recursos Humanos pela Universidade Ibirapuera (2009). Mestre e Doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Tem experiência na área de Teologia e Bíblia, com ênfase na linguagem religiosa do Antigo Testamento. Pós-doutorando em Teologia (PPGT) da Pontifica Universidade Católica do Paraná (PUC/PR).